Há dois dias, escrevemos aqui sobre como o IPO da SpaceX era, no fundo, uma história sobre inteligência artificial, e não apenas sobre foguetes. Hoje, esse IPO deixou de ser expectativa e virou realidade — com um desfecho à altura das manchetes.

Nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, a SpaceX estreou na Nasdaq com forte valorização: alta de cerca de 11% no primeiro dia, levando a empresa a uma avaliação de mercado próxima de US$ 1,96 trilhão. Os papéis, que começaram a ser negociados a US$ 135, avançaram para a casa dos US$ 150. E, com isso, Elon Musk foi oficialmente reconhecido como o primeiro trilionário da história.

Mas o capítulo mais interessante não é o da fortuna. É o que Musk pretende fazer a seguir — e que dá um novo sentido a toda a aposta: levar a inteligência artificial literalmente para o espaço. Este artigo é a continuação da nossa cobertura, e foca exatamente nessa próxima fronteira, sem repetir o que já contamos sobre os bastidores financeiros do IPO.


O marco: o primeiro trilionário e os 4.400 novos milionários

Antes de olhar para as estrelas, vale registrar a dimensão do que aconteceu na Terra.

A oferta pública da SpaceX captou US$ 75 bilhões — o maior IPO da história, superando com folga o recorde anterior. Antes da venda das ações, a fortuna de Musk era estimada pela Forbes em torno de US$ 780 bilhões. Com a estreia, ele cruzou a marca dos 13 dígitos, tornando-se trilionário — sem nenhum rival próximo: o segundo homem mais rico do mundo está avaliado em cerca de um terço disso.

E o efeito não se limitou ao fundador. A estreia transformou ao menos 4.400 funcionários da SpaceX em multimilionários, distribuindo parte da valorização entre quem construiu a empresa por dentro.

No pregão, Musk resumiu sua visão com uma frase que dá o tom do que vem a seguir: a missão da SpaceX, disse ele, é tirar a ficção da ficção científica e construir um futuro inspirador para todos. E é justamente aí que entra o próximo grande plano.


A próxima fronteira: por que Musk quer levar a IA para a órbita

A ideia parece saída de um roteiro de cinema, mas Musk falou sobre ela com bastante seriedade, num vídeo de 31 minutos divulgado no início de junho, ao lado de executivos da empresa. A proposta: construir data centers — os centros de processamento que alimentam a IA — no espaço, em órbita da Terra.

Por que fazer algo tão complexo? A resposta está num problema muito concreto e muito terrestre.

Treinar e operar modelos de IA exige uma quantidade brutal de energia e de refrigeração. Os data centers na Terra consomem eletricidade em escala industrial, esquentam enormemente e precisam de sistemas de resfriamento que gastam água e energia. Em cidades como Tóquio, Nova York ou Frankfurt, construir um único grande data center refrigerado a água pode levar até 18 meses e custar bilhões.

No espaço, segundo o argumento de Musk, dois recursos que são caros e limitados na Terra se tornam praticamente ilimitados:

Energia solar direta e contínua. Em órbita, os painéis solares captam luz do Sol sem a interferência da atmosfera, das nuvens ou do ciclo dia-noite. Estimativas citadas nas negociações indicam que a energia solar no espaço pode ser cerca de 36% mais eficiente do que na superfície terrestre.

Resfriamento natural pelo vácuo. O espaço é frio, e o vácuo permite dissipar calor por radiação infravermelha. Em vez de gastar energia bombeando água para resfriar servidores, a estrutura libera calor diretamente para o espaço.

Como Musk resumiu, não seria necessária nenhuma “mágica” para isso — segundo ele, os componentes fundamentais já existem ou estão ao alcance da tecnologia atual.


Como isso funcionaria na prática

Saindo do conceito para a execução, o plano tem peças concretas que vale a pena conhecer.

Os satélites Starlink como mini data centers. A base do plano é a próxima geração da constelação Starlink, a versão V3. Cada satélite V3 funcionaria como um pequeno data center em órbita, equipado com processadores capazes de executar tarefas semelhantes às dos servidores que hoje treinam e rodam sistemas de IA. A meta é ambiciosa: a SpaceX pretende implantar dezenas de milhares desses satélites — fala-se em até 30 mil unidades —, formando uma capacidade de computação comparável à de grandes centros terrestres.

Conexão por laser. Os módulos seriam interligados por enlaces ópticos a laser e integrados à constelação Starlink, transmitindo dados de e para a Terra com baixa latência.

O Project Suncatcher. Numa frente paralela, o Google e a SpaceX confirmaram em maio de 2026 negociações formais para lançar instalações inteiras de processamento de IA em órbita baixa antes de 2030. Os primeiros protótipos do chamado Project Suncatcher estão previstos para entrar em órbita já no início de 2027.

A fábrica de chips Terafab. Para abastecer toda essa infraestrutura, Musk revelou planos de construir uma fábrica de chips chamada Terafab, no Texas, com cerca de 9,3 milhões de metros quadrados — aproximadamente dez vezes o tamanho da Gigafactory da Tesla no estado. A meta inicial é alcançar capacidade de computação alimentada por 1 gigawatt de energia até o fim de 2027, com ambição de escalar sucessivamente até 1 terawatt (mil gigawatts) — um volume muito superior ao consumido pelos data centers atuais.

A peça que decide tudo: o Starship V3. Nada disso é possível sem reduzir drasticamente o custo de colocar carga em órbita. É aí que entra o Starship V3, a terceira geração do foguete super-pesado em desenvolvimento na base de Boca Chica, no Texas. Ele promete reduzir o custo de lançamento por quilo em até dez vezes em relação ao Falcon 9 atual, graças ao reaproveitamento completo dos estágios. Esse salto econômico é a condição matemática para que data centers orbitais se tornem competitivos com a infraestrutura terrestre.


Os obstáculos: não é só apontar para cima e lançar

Seria irresponsável apresentar esse plano apenas pelo lado do entusiasmo. Os desafios são enormes, e há ceticismo legítimo no meio técnico.

Dissipação de calor. Esse é o paradoxo central. Embora o espaço seja frio, dissipar calor no vácuo é difícil, porque não há ar para conduzir ou convectar o calor — tudo precisa ser irradiado. Data centers de IA geram centenas de megawatts de calor por causa da alta densidade de processadores. A SpaceX argumenta que espaçar os satélites de 100 a 150 km de distância minimiza a concentração de calor, mas críticos apontam que essa é uma das partes mais frágeis do plano.

Manutenção e durabilidade. Um servidor que falha na Terra é trocado por um técnico em minutos. Em órbita, manutenção é caríssima ou impossível. Radiação cósmica, micrometeoritos e o desgaste do ambiente espacial são riscos reais para equipamentos eletrônicos sensíveis.

Regulação. Lançar dezenas de milhares de satélites adicionais levanta questões de tráfego orbital, lixo espacial e regulamentação internacional ainda não resolvidas.

Histórico de prazos. Vale o ceticismo saudável: a SpaceX tem um histórico de atrasar cronogramas ambiciosos. O próprio Starship V3, peça-chave de tudo, ainda precisa provar sua confiabilidade comercial. Não por acaso, algumas análises técnicas já saíram com títulos diretos afirmando que os data centers no espaço “não vão funcionar” — pelo menos não nos prazos prometidos.


O que isso tem a ver com você

Pode parecer que data centers em órbita são uma preocupação distante, de bilionários e engenheiros aeroespaciais. Mas a lógica por trás disso conecta-se diretamente com algo que afeta todo mundo que usa IA.

Toda vez que você usa o ChatGPT, o Claude ou qualquer ferramenta de IA, há um data center consumindo energia para processar seu pedido. O crescimento explosivo da IA está esbarrando num limite físico: energia e refrigeração na Terra são caras, poluentes e limitadas. A própria existência de um plano tão radical quanto “colocar a IA no espaço” é a prova de quão séria é essa restrição.

Em outras palavras: a corrida espacial da IA é, no fundo, uma corrida por energia. Quem resolver o problema de alimentar a inteligência artificial de forma barata e sustentável — seja no espaço, seja com energia nuclear, seja com eficiência —, ganha uma vantagem decisiva. E essa disputa vai influenciar o custo, a disponibilidade e até o impacto ambiental das ferramentas que você usa no trabalho.


Conclusão

A estreia da SpaceX na bolsa e a ascensão de Musk ao posto de primeiro trilionário da história são, em si, marcos notáveis. Mas o que torna essa história fascinante não é o tamanho da fortuna — é a ambição do que vem depois. Levar a inteligência artificial para a órbita da Terra é o tipo de plano que mistura visão genuína com incerteza enorme, e que só o tempo dirá se era genialidade ou exagero.

O que é inegável é o sinal de fundo: a demanda por IA cresceu a ponto de empurrar uma das empresas mais valiosas do planeta a buscar, fora da Terra, a energia e o espaço que faltam aqui embaixo. Seja qual for o destino do Project Suncatcher, ele já diz muito sobre a dimensão da transformação que a inteligência artificial está provocando.

Para quem acompanha tudo isso com os pés no chão — o leitor da IAtivei —, fica a lição de sempre: por trás de cada ferramenta de IA que parece mágica na tela do computador, há uma infraestrutura física, cara e disputada. Entender essa engrenagem é entender para onde a tecnologia, e o trabalho que depende dela, estão indo.