Em 12 de junho de 2026 — amanhã, no momento em que este texto é publicado —, a SpaceX, de Elon Musk, deve começar a ter suas ações negociadas na bolsa Nasdaq sob o código SPCX. A precificação está marcada para hoje, 11 de junho. Os números são de tirar o fôlego: a empresa mira uma avaliação de cerca de US$ 1,75 trilhão e uma captação de até US$ 75 bilhões.
Se esses valores se confirmarem, será o maior IPO da história — superando em mais de 2,5 vezes o recorde anterior, da petrolífera saudita Aramco, que levantou US$ 29,4 bilhões em 2019.
À primeira vista, é uma notícia sobre foguetes, satélites e o homem mais rico do mundo prestes a se tornar o primeiro trilionário. Mas, para quem acompanha inteligência artificial, há uma história mais interessante escondida nos detalhes — e ela explica por que esse IPO importa muito além do setor espacial.
Por que uma empresa de foguetes virou notícia de IA
A resposta está em uma sequência de eventos que reorganizou a SpaceX nos últimos meses.
Em fevereiro de 2026, a SpaceX absorveu a xAI — a empresa de inteligência artificial de Elon Musk, dona do chatbot Grok e da rede social X (antigo Twitter) — numa fusão totalmente em ações. Com isso, a SpaceX deixou de ser apenas uma empresa de exploração espacial e passou a ser também uma das maiores apostas de IA do mundo.
A lógica, quando se olha de longe, tem uma coerência: a Starlink (internet via satélite) gera o caixa, os foguetes fazem os lançamentos, a xAI constrói a capacidade de computação, e o X distribui tudo para os consumidores. Quatro negócios interligados sob um mesmo guarda-chuva.
Mas havia um problema. E é aqui que a história fica interessante.
O problema que virou solução: a computação ociosa
A xAI construiu, em Memphis (EUA), um supercomputador chamado Colossus 1 — uma instalação gigantesca, originalmente erguida para treinar os modelos do Grok. O plano era usar todo esse poder computacional para competir com ChatGPT, Claude e Gemini.
O problema: o uso do Grok caiu significativamente nos últimos meses, enfrentando concorrência mais forte de Claude, Gemini e ChatGPT. Resultado: a xAI ficou com uma enorme capacidade de computação parada, ociosa, custando caro sem gerar retorno. No primeiro trimestre de 2026, a divisão de IA registrou um prejuízo operacional de US$ 2,47 bilhões.
A solução foi engenhosa — e reveladora sobre como funciona a economia da IA hoje. Em vez de deixar a capacidade ociosa, a SpaceX passou a alugá-la para concorrentes. E não para qualquer um.
A trama central: a Anthropic aluga o supercomputador de seu concorrente
Aqui está o detalhe mais surpreendente de toda a história.
A Anthropic — criadora do Claude e concorrente direta do Grok — fechou um acordo para alugar a totalidade da produção do Colossus 1, o supercomputador que a xAI havia construído para treinar seu próprio modelo. O contrato: US$ 1,25 bilhão por mês, até maio de 2029. No total, a Anthropic pode pagar mais de US$ 45 bilhões à SpaceX ao longo do contrato — cerca de US$ 15 bilhões por ano vindos de um único cliente.
Leia novamente: a empresa do Claude está pagando bilhões para usar o supercomputador construído pela empresa do Grok. Dois concorrentes diretos na fronteira da IA, unidos por uma relação de fornecedor e cliente.
E não para por aí. Em 5 de junho de 2026, um segundo acordo foi revelado: o Google também alugará capacidade da SpaceX, pagando US$ 920 milhões por mês a partir de outubro, até junho de 2029. Combinados, os dois contratos representam cerca de US$ 26 bilhões em receita anualizada de computação — vinda de duas das empresas de IA mais bem financiadas do mundo.
O próprio documento de IPO da SpaceX reconhece a estranheza da situação: a Anthropic é, ao mesmo tempo, cliente da infraestrutura da SpaceX e concorrente direta do Grok na fronteira dos modelos de IA.
O que essa trama revela sobre a economia da IA
Essa história aparentemente bizarra — concorrentes alugando infraestrutura uns dos outros — não é um acaso. É um sintoma de como a economia da inteligência artificial funciona em 2026.
A computação virou o ativo mais valioso e mais escasso
Treinar e rodar modelos de IA de fronteira exige uma quantidade colossal de poder computacional — data centers gigantescos, milhares de GPUs caríssimas, consumo de energia em escala industrial. Esse recurso é tão valioso e tão escasso que faz sentido, financeiramente, alugá-lo até para um concorrente, em vez de deixá-lo parado. A computação deixou de ser um detalhe técnico e virou o centro de gravidade econômico do setor.
O modelo “neocloud” está nascendo
A estratégia da SpaceX/xAI tem nome: “neocloud”. A ideia é que empresas de IA, depois de construir infraestrutura para si mesmas, passem a atuar também como provedoras de nuvem, alugando capacidade ociosa para outras empresas. É uma forma de compensar os custos altíssimos de infraestrutura quando o uso próprio fica abaixo da capacidade instalada. A xAI, ao fazer isso, adotou uma postura híbrida rara no mercado — constrói data centers para si e para terceiros ao mesmo tempo.
As contas dependem mais da IA do que dos foguetes
Do ponto de vista da avaliação, esses contratos de IA são decisivos. Adicionando os US$ 26 bilhões de receita de computação ao faturamento esperado da SpaceX, o IPO passa a ser precificado a cerca de 35 vezes as vendas de 2026 — caro, mas bem mais palatável do que seria sem os acordos de IA. Em outras palavras: parte significativa do que justifica o valor recorde da SpaceX não vem de foguetes, mas de aluguel de computação para empresas de inteligência artificial.
As vozes céticas
Vale registrar, com honestidade, que nem todos compram a euforia.
A consultoria Morningstar avaliou o “valor justo” da SpaceX em cerca de US$ 780 bilhões — menos da metade do valor-alvo de US$ 1,75 trilhão. O analista responsável classificou a xAI como uma “ameaça material de destruição de valor” e afirmou que o Grok não está, hoje, entre os principais laboratórios de IA do mundo. A SpaceX acumula um déficit de US$ 41,3 bilhões, segundo seu próprio prospecto.
Para colocar em perspectiva: a Nvidia, uma das empresas de tecnologia mais lucrativas do mundo, é negociada a cerca de 22 vezes sua receita. A SpaceX está pedindo um múltiplo mais de quatro vezes maior — aplicado a uma empresa que ainda dá prejuízo.
A aposta dos investidores, portanto, não é no que a empresa fatura hoje. É no que eles acreditam que ela se tornará amanhã. E boa parte dessa crença está ancorada na IA.
O que isso significa para o profissional brasileiro
Pode parecer que um IPO bilionário em Wall Street tem pouca relação com o dia a dia de quem usa IA no trabalho no Brasil. Mas há conexões concretas.
O custo da IA que você usa tem origem aqui
Quando você usa o Claude, o ChatGPT ou qualquer ferramenta de IA, está acessando modelos que rodam em infraestruturas como o Colossus. Os bilhões que a Anthropic paga pela computação acabam, em alguma medida, refletidos no preço e nos limites dos planos que chegam ao usuário final. Entender essa cadeia ajuda a compreender por que ferramentas de IA têm os preços que têm — e por que os planos gratuitos vivem sob pressão.
Para quem investe
O IPO da SpaceX abre janelas de acesso para o investidor brasileiro. O BTG Pactual é o único banco latino-americano no consórcio de 21 coordenadores globais, e corretoras internacionais como Avenue e Interactive Brokers também são alternativas. Após a listagem, é provável que surjam BDRs na B3. Como sempre, vale lembrar: este não é um conselho de investimento, e o ceticismo de analistas como a Morningstar mostra que há riscos reais embutidos na avaliação. Cada investidor deve fazer sua própria análise.
O sinal de mercado mais amplo
A estreia da SpaceX é o primeiro dos três grandes IPOs de IA esperados para 2026 — seguido por Anthropic e OpenAI. Como o primeiro a chegar ao mercado, o desempenho da SPCX vai funcionar como termômetro do apetite dos investidores por toda a onda de IA. Se a SpaceX for bem, abre caminho para os outros. Se tropeçar, pode esfriar o entusiasmo do setor inteiro.
Conclusão
O IPO da SpaceX será lembrado, nas manchetes, como o maior da história e como o trampolim para Elon Musk se tornar trilionário. Mas, olhando com atenção, a história mais reveladora não é sobre foguetes nem sobre fortunas pessoais — é sobre como a inteligência artificial se tornou o motor econômico que move até as maiores apostas do mercado.
Concorrentes alugando supercomputadores uns dos outros, avaliações de trilhões ancoradas em contratos de computação, o “valor de amanhã” valendo mais do que o faturamento de hoje: tudo isso desenha o retrato de um setor em que a IA deixou de ser uma promessa futurista e virou a infraestrutura sobre a qual o dinheiro de verdade está sendo apostado, agora.
Para quem acompanha essa transformação com o objetivo de entendê-la e se posicionar — o leitor da IAtivei —, o recado é claro: a IA não é mais só uma ferramenta no seu computador. É a força que está redesenhando as maiores movimentações do mercado global.
