Em menos de dez dias, as duas empresas mais influentes no mundo da inteligência artificial fizeram movimentos que vão muito além do mercado financeiro. A Anthropic, criadora do Claude, protocolou seu pedido confidencial de abertura de capital em 1º de junho de 2026. A OpenAI, criadora do ChatGPT, seguiu o mesmo caminho na segunda-feira, 8 de junho. Para quem acompanha ações na bolsa, é uma notícia de finanças. Para quem usa IA no trabalho todo dia, é um sinal de que o jogo está mudando — e entender o que está por trás dessa corrida ajuda a se preparar para o que vem a seguir.


O que é um IPO e por que as duas empresas estão fazendo isso agora

IPO é a sigla em inglês para Initial Public Offering — abertura de capital, em português. É quando uma empresa decide vender suas ações ao público em geral pela primeira vez, passando a ser negociada em bolsa. Antes disso, apenas investidores privados, fundos de venture capital e parceiros estratégicos têm acesso às ações.

Tanto a OpenAI quanto a Anthropic fizeram o que se chama de “protocolo confidencial” — um passo preliminar que permite que a empresa negocie sua documentação com a SEC (a CVM americana) antes de tornar tudo público. Não há ainda data, preço ou número de ações definidos. O que há é a confirmação de que as duas empresas pretendem abrir capital em algum momento no segundo semestre de 2026.

A questão óbvia é: por quê agora?

A resposta curta é: dinheiro. E muita necessidade dele.


Os números que explicam tudo

Antes de entender a corrida ao IPO, é preciso entender a escala financeira em que essas empresas operam — porque os números são, no mínimo, impressionantes.

A Anthropic chegou ao protocolo de abertura de capital com uma avaliação de US$ 965 bilhões — quase US$ 1 trilhão. Isso depois de ter captado US$ 65 bilhões numa única rodada de investimentos, a Série H, encerrada poucos dias antes do protocolo. A rodada foi liderada por fundos como Sequoia Capital, Coatue e D1 Capital Partners, com participação de investidores institucionais que enxergaram no IPO a oportunidade de ter acesso ao papel de uma empresa que, até então, era acessível apenas ao mercado privado.

A OpenAI, por sua vez, foi avaliada em US$ 852 bilhões na sua última rodada de captação privada, em março de 2026. Com o pedido de IPO, a empresa mira uma estreia em bolsa entre setembro e outubro de 2026, com Goldman Sachs e Morgan Stanley como bancos coordenadores, numa faixa de avaliação entre US$ 730 bilhões e US$ 850 bilhões.

Para dar uma dimensão do tamanho disso: a Petrobras, a maior empresa brasileira, vale hoje cerca de R$ 450 bilhões — menos de US$ 90 bilhões. A OpenAI, uma empresa com apenas nove anos de existência, vale quase dez vezes mais.

Mas tem um detalhe que qualquer profissional que usa essas ferramentas precisa entender: essas empresas estão queimando dinheiro em uma velocidade sem precedente na história da tecnologia.


O paradoxo financeiro da IA: quanto mais cresce, mais perde

Documentos obtidos pelo Wall Street Journal e reportados pela imprensa brasileira revelam uma realidade financeira que parece contraditória: a OpenAI projeta gastar US$ 121 bilhões apenas em infraestrutura de computação no ano de 2028. No mesmo período, mesmo com a receita quase dobrando, a empresa espera acumular um prejuízo de US$ 85 bilhões — uma cifra sem precedente na história de empresas de capital aberto.

Projeções mais pessimistas indicam que a OpenAI pode registrar um prejuízo de até US$ 14 bilhões ao longo de 2026, impulsionado principalmente por gastos com servidores, GPUs e data centers. O banco HSBC calculou que, entre 2025 e 2030, a empresa deverá gastar US$ 792 bilhões em infraestrutura de nuvem e IA, com compromissos totais chegando a US$ 1,4 trilhão até 2033. Só o aluguel de data centers deve consumir US$ 620 bilhões desse montante.

A Anthropic enfrenta o mesmo problema estrutural, embora em escala menor. Segundo a Exame, ambas as empresas chegaram a adotar uma prática incomum: divulgar dois conjuntos de resultados financeiros separados — um que inclui os custos de treinamento de novos modelos e outro que os exclui. Sem esses gastos, as duas estariam próximas do lucro operacional em 2026. Com eles, o prejuízo é inevitável.

O motivo é simples: cada nova geração de modelos de IA exige mais processamento, mais energia e mais infraestrutura do que a anterior. E esse ciclo não dá sinais de desaceleração. Quanto mais inteligente o modelo, mais caro fica produzi-lo.

Por que, então, continuar investindo? Porque parar significa ficar para trás. E ficar para trás, num mercado onde a liderança tecnológica determina quem captura clientes, contratos e talentos, é o pior cenário possível.


A corrida ao IPO como estratégia de sobrevivência

Nesse contexto, abrir capital não é uma celebração. É uma necessidade estrutural.

Quando uma empresa abre capital, ela capta bilhões de dólares de investidores que agora passam a ser acionistas — e esses recursos chegam sem a obrigação de devolução que caracteriza um empréstimo. Para a OpenAI e a Anthropic, que precisam de capital contínuo para manter e expandir sua infraestrutura, o IPO é uma das formas mais eficientes de conseguir o dinheiro necessário para sustentar a corrida.

Há também um elemento de timing estratégico. A Anthropic, ao protocolar antes da OpenAI, sinaliza que pretende chegar à bolsa primeiro — o que tende a atrair mais atenção e demanda de investidores institucionais que, no caso de uma estreia simultânea, precisariam dividir seu capital entre as duas.

Além disso, SpaceX, de Elon Musk, também está em processo de IPO neste mesmo período, com uma avaliação-alvo de US$ 2 trilhões e uma oferta pública superior a US$ 75 bilhões. Analistas da Goldman Sachs projetam que 2026 pode superar o recorde histórico de captações em bolsa nos Estados Unidos, estabelecido em 2021, com um volume total acima de US$ 160 bilhões em IPOs ao longo do ano.

É, em todos os sentidos, uma temporada excepcional.


O que muda para quem usa ChatGPT e Claude no trabalho

Aqui está a parte que mais importa para o leitor da IAtivei: o que essa movimentação financeira tem a ver com o seu dia a dia profissional?

Mais do que parece à primeira vista.

Pressão por receita

Quando uma empresa abre capital, ela passa a responder trimestralmente a acionistas que cobram crescimento de receita. Isso pode significar mudanças nos modelos de precificação. Planos gratuitos, que hoje funcionam como porta de entrada para novos usuários, passam a ser analisados sob a lente do custo de aquisição versus retorno. A tendência, com o tempo, é que os limites dos planos gratuitos fiquem mais restritos e que as funcionalidades mais úteis migrem para planos pagos.

A OpenAI já sinalizou esse movimento ao lançar, nos últimos meses, versões mais robustas de modelos exclusivamente para assinantes pagos. A Anthropic segue caminho similar com a segmentação entre Claude.ai gratuito e os planos Pro e Enterprise.

Velocidade de inovação

Com mais capital disponível, a expectativa é que o ritmo de lançamento de novos modelos e funcionalidades acelere. Para quem usa IA no trabalho, isso é positivo: ferramentas melhores, integrações mais sofisticadas, respostas mais precisas. Mas também significa que o aprendizado precisa ser contínuo — o que funcionava bem há seis meses pode já ter sido superado por um novo modelo ou uma nova abordagem.

Estabilidade e confiança

Empresas de capital aberto têm obrigações de transparência que empresas privadas não têm. Resultados financeiros, riscos materiais e decisões estratégicas precisam ser divulgados regularmente. Para quem usa essas ferramentas em processos críticos de trabalho, isso representa um nível a mais de previsibilidade e responsabilização — algo relevante, por exemplo, para decisões de adoção corporativa.

Consolidação do mercado

O IPO da OpenAI e da Anthropic deve atrair ainda mais investimento para o setor de IA como um todo — o que acelera o desenvolvimento de concorrentes, ferramentas especializadas e integrações. Para o profissional brasileiro, isso significa que a janela de vantagem competitiva para quem adota IA antes da maioria está ficando mais estreita.


Anthropic à frente, mas a corrida está aberta

Um ponto que vale destacar: pela primeira vez desde que ambas as empresas surgiram, a Anthropic superou a OpenAI em avaliação de mercado. Os US$ 965 bilhões da Anthropic contra os US$ 852 bilhões da OpenAI representam uma virada que, há dois anos, seria improvável.

Esse crescimento foi impulsionado pelo desempenho do Claude em tarefas de programação e uso empresarial, além de avanços em segurança de IA — um diferencial que a Anthropic construiu como pilar de sua identidade desde a fundação. A empresa anunciou em maio que sua taxa anualizada de receita ultrapassou US$ 47 bilhões, ante US$ 10 bilhões no ano anterior. Um salto de quase cinco vezes em doze meses.

A OpenAI, por sua vez, enfrenta um momento mais turbulento: além do prejuízo projetado, a empresa perdeu metas internas de novos usuários e receita, e sua CFO, Sarah Friar, chegou a declarar publicamente que a companhia “não estava pronta para ser uma empresa de capital aberto” — declaração que, em retrospecto, antecedeu por poucos meses exatamente a decisão de protocolar o IPO.

É um cenário que mistura urgência financeira, pressão competitiva e uma aposta coletiva de que o mercado público vai bancar os altos custos de uma tecnologia que ainda não atingiu seu pico de desenvolvimento.


O que fica para o profissional brasileiro

A conclusão mais prática desse movimento é também a mais simples: as ferramentas que muitos brasileiros já usam no dia a dia — ChatGPT, Claude, Copilot, Gemini — estão passando por uma transição de fase. Saem da era das startups sustentadas por venture capital e entram na era das empresas públicas, com obrigações de resultado e escrutínio de mercado.

Isso não é necessariamente ruim. Mas é diferente. E diferente, nesse caso, significa que as regras do jogo — preços, funcionalidades, acesso, velocidade de atualização — serão cada vez mais determinadas por uma equação financeira que tem acionistas, metas trimestrais e competição acirrada dos dois lados.

Para o profissional que já usa IA: é hora de aprofundar o uso, documentar o que funciona e construir fluência com essas ferramentas enquanto os planos gratuitos ainda existem e os modelos mais avançados ainda são acessíveis.

Para quem ainda está avaliando: a janela para entrar antes da curva está se fechando.


Linha do tempo dos principais eventos

  • 1º de junho de 2026 — Anthropic protocola pedido confidencial de IPO após captar US$ 65 bilhões e atingir avaliação de US$ 965 bilhões
  • 8 de junho de 2026 — OpenAI protocola pedido confidencial de IPO, mirando estreia em bolsa entre setembro e outubro de 2026 com avaliação entre US$ 730 bi e US$ 850 bi
  • Segundo semestre de 2026 — SpaceX, OpenAI e Anthropic devem estrear em bolsa na maior temporada de IPOs desde o boom das ponto-com
  • 2028 (projeção) — OpenAI projeta gastar US$ 121 bilhões em infraestrutura de computação num único ano
  • 2028 (projeção) — Anthropic espera atingir equilíbrio financeiro; OpenAI projeta esse ponto para não antes de 2030