Em 2006, Andy Sachs riu diante de dois cintos que, para ela, pareciam praticamente iguais. Para Miranda Priestly, não eram — e aquela pequena cena de O Diabo Veste Prada acabou se tornando uma das melhores explicações já filmadas sobre o que significa ter repertório. Andy enxergava dois objetos; Miranda enxergava história, tendência, indústria, influência, dinheiro e uma longa cadeia de decisões que havia começado muito antes de aquelas peças chegarem àquela sala.
Vinte anos depois, O Diabo Veste Prada 2 faz uma pergunta curiosamente parecida. Só que agora existe inteligência artificial no meio.
O primeiro filme chegou aos cinemas em 30 de junho de 2006; o segundo estreou em 1º de maio de 2026. São exatamente duas décadas separando duas versões do mesmo mundo, e talvez seja essa a coisa mais interessante do filme — porque nesse intervalo a moda mudou, o jornalismo mudou, a maneira como consumimos informação mudou, e aquilo que significava poder em 2006 já não significa necessariamente poder em 2026.
Miranda continua usando roupas impecáveis, continua entrando em ambientes como se eles lhe pertencessem, continua sendo Miranda Priestly. Mas a armadura tem rachaduras. E não foi uma pessoa que as abriu: foi o mundo.
A Miranda de 2006 sabia exatamente onde estava
No primeiro filme, Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep, está no centro de um sistema que parece praticamente indestrutível. A Runway é uma instituição: estar na revista importa, aparecer nela importa, ser escolhido por Miranda importa. Ela controla acesso, carreiras, tendências e atenção.
Se traduzíssemos Miranda para o vocabulário corporativo de hoje, ela seria aquela executiva cuja autoridade não vem apenas do cargo, mas de décadas acumulando relações, conhecimento, reputação e, sobretudo, capacidade de julgamento. Ela sabe o que funciona antes de quase todo mundo — e sabe que sabe. É por isso que é tão arrogante.
O segundo filme, porém, coloca essa mesma mulher dentro de um sistema que já não obedece às regras que a fizeram poderosa. A edição impressa da Runway perdeu relevância, e a operação precisa disputar atenção com conteúdo digital rápido, barato, redes sociais, métricas, publicidade e formatos construídos para gerar clique. O filme retrata uma revista obrigada a participar de uma economia da atenção muito diferente daquela de 2006.
Miranda continua entendendo de moda. O problema é que agora alguém pode perguntar: isso ainda basta?
Andy também mudou, mas talvez menos do que pareça
Quando reencontramos Andrea Sachs, interpretada por Anne Hathaway, ela conseguiu aquilo que procurava desde o primeiro filme: virou jornalista. E o filme faz questão de nos reapresentar a ela justamente no momento em que deveria estar celebrando uma conquista profissional — só que, enquanto recebe reconhecimento pelo trabalho, sua redação é atingida por uma demissão coletiva.
Não há tempo para romantizar o sucesso. A mensagem é quase brutal: você pode fazer tudo certo e ainda assim trabalhar dentro de um modelo econômico que decidiu que você custa demais.
Andy retorna ao universo da Runway depois dessa ruptura, agora não como a garota que não sabe diferenciar dois cintos, mas como uma jornalista experiente contratada para ajudar uma publicação cuja credibilidade está em crise. E existe algo importante na personagem que sobreviveu aos vinte anos: Andy continua incomodada. Com a injustiça, com a contradição, com aquilo que acontece com outras pessoas.
Ela não é apresentada como uma santa — o filme inclusive a coloca diante de escolhas moralmente mais ambíguas —, mas continua funcionando como contraponto a um ambiente no qual quase tudo pode ser convertido em carreira, dinheiro, influência ou poder. Se Miranda enxerga aquilo que ninguém percebe dentro da moda, Andy frequentemente enxerga aquilo que ninguém quer perceber nas pessoas. É justamente por isso que a relação das duas funciona tão bem: uma possui algo que falta à outra.
Então o império balança
Existe um momento particularmente simbólico no segundo filme. Irv Ravitz, antigo chefe de Miranda e responsável pela companhia que controla a Runway, promete a ela uma promoção para uma função global dentro do grupo — quase a consagração de uma vida inteira de trabalho. Mas Irv morre antes de formalizar a decisão.
Seu filho, Jay, assume o controle da empresa e olha para aquela organização de outra maneira. A ligação emocional com a revista não existe, consultores entram em cena, custos começam a ser examinados, e a posição de Miranda deixa de parecer inquestionável. A mulher que durante décadas fez outras pessoas se sentirem substituíveis descobre que também pode ser considerada substituível.
O filme materializa essa perda de poder em pequenos detalhes. Miranda ainda é Miranda, só que o mundo já não se reorganiza automaticamente ao redor dela. E é aí que O Diabo Veste Prada 2 deixa de ser apenas uma comédia sobre moda, porque praticamente qualquer pessoa que trabalhe em uma grande empresa em 2026 reconhece a linguagem: reestruturação, eficiência, produtividade, consultoria, redução de custos, automação, inteligência artificial.
E então chega o bilionário da tecnologia
Benji Barnes, interpretado por Justin Theroux, é um bilionário de tecnologia. Ele entra na história inicialmente como uma possível solução, trazendo capital, tecnologia, escala e eficiência — tudo aquilo que uma empresa tradicional em dificuldades supostamente deveria desejar. Até que sua visão sobre o futuro da Runway começa a ficar mais clara, e a inteligência artificial ocupa um papel central nela.
É nesse ponto que Miranda parece perceber que a negociação não trata apenas de quem será dono da revista. Trata de o que aquela revista passará a ser.
O diretor David Frankel descreveu Benji como alguém brilhante e incisivo quando fala sobre aquilo que domina — e também um pouco assustador. Já Sasha Barnes, interpretada por Lucy Liu, aparece como um contraponto: alguém interessado em preservar aquilo que considera essencial e digno de proteção.
E talvez esteja aí a pergunta mais interessante do filme. Se uma inteligência artificial consegue produzir uma imagem, escrever um texto, analisar tendências, prever comportamento e personalizar conteúdo, quantas pessoas ainda são necessárias para produzir uma revista de moda? A pergunta parece assustadora, mas há outra ainda mais importante escondida atrás dela: produzir conteúdo é a mesma coisa que produzir uma revista como a Runway? Não necessariamente.
A inteligência artificial já chegou à moda
Aqui o filme deixa de ser apenas ficção, porque a indústria da moda real está vivendo exatamente essa discussão.
O relatório State of Fashion 2026, da McKinsey, aponta que mais de 35% dos executivos do setor já relatam uso de IA generativa em atividades como atendimento online, criação de imagens, copywriting, busca e descoberta de produtos, com ganhos significativos de produtividade em marketing e vendas. Ou seja: Benji não está errado simplesmente porque acredita em inteligência artificial. Seria fácil escrever essa história dessa maneira, mas seria uma história ruim.
A IA pode analisar grandes volumes de dados, identificar padrões, produzir variações de uma campanha, ajudar na previsão de demanda, personalizar recomendações, acelerar a criação de conteúdo e automatizar tarefas repetitivas. Isso já está acontecendo e vai continuar acontecendo.
O próprio relatório da McKinsey, porém, faz uma ressalva que parece ter sido escrita para a Runway: as empresas precisam aproveitar a tecnologia enquanto protegem a criatividade essencial que faz a moda funcionar. Esse detalhe muda toda a discussão, porque a pergunta deixa de ser “IA ou pessoas?” e passa a ser outra, muito mais difícil: o que devemos entregar à IA — e o que uma empresa não pode se dar ao luxo de perder?
Miranda é extremamente automatizável. E extremamente difícil de substituir.
Esse talvez seja o paradoxo mais interessante de todo o filme, porque grande parte do trabalho que cerca Miranda pode, sim, ser automatizada. Uma inteligência artificial consegue cruzar tendências, analisar vendas, ler milhares de comentários, identificar quais cores estão crescendo nas redes sociais, comparar coleções, gerar referências visuais, resumir pesquisas, criar previsões, organizar reuniões e preparar apresentações. Talvez faça boa parte disso muito melhor e muito mais rápido do que uma equipe humana.
Mas existe uma diferença entre analisar aquilo que já aconteceu e decidir aquilo que deveria acontecer depois. Miranda não é valiosa porque possui informações que ninguém mais consegue acessar; ela é valiosa porque desenvolveu algo muito mais difícil de colocar numa planilha: critério.
Critério é repertório comprimido em decisão. É olhar dez opções razoavelmente boas e perceber qual delas representa algo. É saber quando os números estão certos e, ainda assim, a decisão está errada. É perceber uma mudança antes que ela apareça em um dashboard, e conhecer um setor profundamente o bastante para entender que alguns ativos não aparecem no balanço.
Esse conhecimento não torna Miranda infalível — muito pelo contrário, o segundo filme existe justamente porque ela também erra. Mas existe uma diferença enorme entre usar inteligência artificial para ampliar esse julgamento e decidir que o julgamento deixou de ser necessário.
Andy possui outro tipo de inteligência
Andy representa um segundo tipo de valor humano: empatia. Não aquela empatia corporativa impressa num slide de valores, mas a capacidade de perceber a pessoa escondida atrás do papel que ela representa.
A Miranda que Andy reencontra não é mais apenas a chefe quase mitológica do primeiro filme. É uma mulher percebendo que décadas de trabalho podem ser reavaliadas por alguém olhando uma planilha. Aos poucos, Andy consegue enxergar por trás da arrogância — não para absolver Miranda, nem para fingir que ela deixou de ser difícil, manipuladora ou cruel em vários momentos, mas para compreender que seres humanos são mais contraditórios do que os papéis que desempenham. E compreensão muda decisões.
Essa talvez seja uma das mensagens mais silenciosas do filme. Andy não salva situações porque calcula melhor; ela percebe relações, intenções, medos, lealdades, vaidades, e a distância entre aquilo que as pessoas dizem e aquilo que realmente querem. Nenhum desses elementos é místico ou impossível de modelar, mas todos continuam sendo territórios nos quais o contexto humano importa enormemente.
E Emily?
Emily Charlton, vivida novamente por Emily Blunt, talvez seja o personagem mais interessante para completar esse triângulo. Em 2006 ela queria desesperadamente pertencer ao mundo de Miranda; em 2026, conseguiu — agora ocupa uma posição executiva importante na Dior e conhece perfeitamente as regras do jogo.
Se Andy saiu daquele universo para encontrar propósito, Emily decidiu aprender a vencê-lo. Ela é competente, estratégica, ambiciosa, e provavelmente entende o capitalismo da moda melhor do que Andy jamais quis entender. Por isso as duas funcionam quase como versões alternativas de uma mesma escolha.
E é aqui que o filme organiza, quase sem avisar, as quatro perguntas que estruturam qualquer decisão profissional. Andy pergunta: isso é certo? Emily pergunta: isso funciona? Miranda pergunta: isso é excelente? E a tecnologia adiciona uma quarta: isso pode ser feito de forma mais rápida e barata?
Nenhuma delas é ilegítima. O problema começa quando acreditamos que a quarta pergunta torna as outras três desnecessárias.
O perigo não é a IA, é transformar eficiência em estratégia
A discussão sobre inteligência artificial e trabalho costuma cair em dois extremos: de um lado, a promessa de que máquinas farão praticamente tudo; do outro, a previsão de uma espécie de apocalipse profissional. Os dados disponíveis até agora contam uma história mais complicada do que qualquer um dos dois.
A Organização Internacional do Trabalho estima que cerca de um em cada quatro empregos no mundo possui algum grau de exposição à IA generativa, mas sua conclusão mais importante é justamente que a transformação das funções é mais provável do que a substituição integral. Na mesma direção, uma análise publicada pelo Stanford Institute for Economic Policy Research em julho de 2026 recomenda cautela com previsões grandiosas: até agora, o impacto da IA sobre o emprego agregado parece pequeno, os efeitos sobre produtividade são mistos — embora geralmente positivos — e a adoção pelas empresas continua bastante desigual.
A tecnologia é real, a transformação é real e os ganhos são reais. Mas a ideia de que existe uma fórmula universal chamada “substitua pessoas por IA e reduza custos” simplesmente não encontra respaldo na realidade. E talvez o erro de Benji seja exatamente esse: ele não representa a inteligência artificial, representa uma maneira de pensar sobre ela.
O público já percebeu essa diferença
Existe um dado particularmente interessante quando saímos da moda e entramos no jornalismo — justamente a profissão de Andy. Uma pesquisa do Reuters Institute realizada em seis países encontrou uma enorme diferença entre a aceitação de notícias produzidas integralmente por IA e a de notícias nas quais jornalistas usam a IA como ferramenta: apenas 12% dos entrevistados disseram se sentir confortáveis com conteúdo inteiramente automatizado, número que sobe para 43% quando um humano lidera o trabalho com alguma ajuda da máquina.
E há mais. As pessoas acreditam que a IA poderá tornar as notícias mais baratas e mais atualizadas, mas tendem a acreditar, ao mesmo tempo, que elas serão menos transparentes e menos confiáveis. É uma troca reveladora: podemos produzir mais, mais rápido e mais barato — só que isso não significa automaticamente produzir melhor.
Essa pergunta vale para uma reportagem, para uma campanha publicitária, para uma análise de dados, para um projeto, para uma coleção de moda e para praticamente qualquer trabalho de conhecimento.
Talvez a verdadeira vantagem humana não seja fazer aquilo que a IA não consegue
Durante muito tempo procuramos uma espécie de fortaleza — criatividade, empatia, estratégia, pensamento crítico —, alguma habilidade que pudéssemos apontar e dizer: “isso a máquina nunca fará”. Talvez essa procura esteja errada.
Os modelos continuarão melhorando, e coisas que pareciam exclusivamente humanas há cinco anos já podem ser parcialmente executadas por máquinas hoje. Construir nossa relevância profissional em torno de uma lista fixa de tarefas que a IA “não consegue fazer” é apostar num terreno que encolhe a cada ano.
A vantagem humana talvez esteja em outro lugar: em decidir o que merece ser feito. Escolher, julgar, assumir responsabilidade, perceber consequência, conectar coisas que um indicador isolado não conecta, entender quando a eficiência está destruindo valor e usar a tecnologia sem terceirizar a ela a definição daquilo que importa.
É aí que Miranda e Andy, personagens aparentemente opostas, se encontram. Miranda sabe reconhecer valor; Andy sabe perguntar para quem aquele valor serve. Uma organização precisa das duas perguntas.
Emily queria ocupar a cadeira
Emily passou vinte anos tentando vencer o jogo, e venceu bastante. Emily Blunt descreve sua personagem como alguém que finalmente tem poder e gosta de exercê-lo, e cuja grande obsessão é se tornar “icônica” — mas a atriz chama atenção para algo menos evidente: por trás daquela segurança existe uma quantidade enorme de insegurança.
Isso ajuda a entender o que acontece depois. Emily aparentemente participa de um plano para salvar a Runway, mas Miranda descobre que existe outra intenção escondida: se Benji comprar a revista, Emily pretende retirá-la do comando e assumir seu lugar.
Há uma ironia deliciosa nisso. Emily passou tanto tempo querendo chegar ao topo que, quando finalmente enxerga a cadeira de Miranda vazia, só consegue enxergar a cadeira. Andy enxerga a pessoa sentada nela.
Não é que Andy seja menos ambiciosa — ela também quer reconhecimento, também quer produzir trabalhos importantes, também aceita fazer concessões questionáveis ao longo do filme. A diferença é que sua ambição ainda encontra resistência dentro dela, e existe uma pergunta que continua aparecendo: quem vai pagar o preço desta decisão? Emily olha para cima; Andy olha para os lados. Num mercado de trabalho cada vez mais obcecado por performance individual, talvez essa diferença seja maior do que parece.
A ironia final é que Emily comete exatamente o mesmo erro da máquina. Não porque ela seja uma máquina, mas porque passa a enxergar o problema de maneira estreita: existe uma revista em dificuldade, existe uma empresa disponível para compra, existe uma posição de poder, existe alguém que pode financiá-la. A equação fecha.
Só que organizações não são equações. Uma empresa pode ter ativos, prédios, contratos, marcas, bancos de dados e propriedade intelectual, mas existe outro patrimônio que dificilmente aparece inteiro numa due diligence: repertório, confiança, relações, memória, cultura, credibilidade e pessoas que sabem por que determinadas coisas são feitas daquela maneira — e, principalmente, quando elas precisam deixar de ser feitas daquela maneira. É justamente o tipo de patrimônio que uma estratégia de redução de custos mal construída corre o risco de chamar simplesmente de despesa.
Talvez seja esse o verdadeiro erro que atravessa o filme. Benji olha para a Runway e vê uma operação que pode ser tecnologicamente otimizada; Emily olha e vê uma posição que pode ocupar; Jay olha e vê um patrimônio que pode vender. Andy olha e pergunta se existe alguma coisa ali que ainda merece ser preservada. E Miranda, talvez pela primeira vez, precisa descobrir a resposta.
Então Nigel conta uma coisa
Perto do fim, vem um detalhe pequeno, que quase passa despercebido depois de tanta disputa bilionária: Nigel revela que foi ele quem sugeriu a Irv que trouxesse Andy de volta para a Runway.
Pense nisso. Vinte anos haviam passado. Andy construiu uma carreira, ganhou prêmio, escreveu reportagens, acumulou experiência. Mas uma das oportunidades mais importantes daquele momento não apareceu porque um sistema identificou palavras-chave perfeitas em seu currículo — ela apareceu porque alguém se lembrava dela.
Nigel trabalhou com Andy. Viu como ela pensava, como aprendia, como tratava as pessoas. E, vinte anos depois, quando surgiu um problema difícil, seu nome voltou à cabeça dele.
Existe uma espécie de capital profissional que não cabe direito no LinkedIn. Você pode chamar de reputação, de confiança, de memória, ou simplesmente da impressão que deixamos nas pessoas depois que saímos de uma sala. Um currículo registra aquilo que fizemos; as pessoas se lembram de como fizemos.
E esse ativo tende a ficar mais valioso, não menos, num mundo em que as máquinas conseguirão produzir currículos mais bonitos, apresentações melhores, relatórios mais rápidos, textos mais bem estruturados e análises cada vez mais sofisticadas. Quanto mais fácil ficar produzir competência aparente, mais rara e mais decisiva se torna a confiança construída no mundo real.
Só que a vida não termina como um filme
No final, tudo parece se acomodar. Surge Sasha Barnes, a negociação muda, Benji perde a aquisição, o plano de Emily desmorona, e Miranda, Andy e Nigel continuam. Até Emily encontra algum tipo de reconciliação. Quase dá para ouvir os pássaros: o céu abre, a Runway está salva, fim.
Só que há uma provocação importante escondida nessa felicidade. A própria Meryl Streep descreveu a solução encontrada pelo filme como algo precário e quase fantástico, e disse que permanece a pergunta sobre quanto tempo aquilo realmente pode durar.
Talvez essa seja a parte mais realista de O Diabo Veste Prada 2. Porque, fora do cinema, Sasha nem sempre aparece. Não existe necessariamente uma segunda proposta, nem um roteiro garantindo que a empresa perceberá a tempo aquilo que estava prestes a destruir. Às vezes o corte acontece, às vezes aquela equipe desaparece, e às vezes vinte anos de conhecimento institucional saem pela porta porque, em uma planilha, substituir parecia mais barato.
A inteligência artificial fará parte dessa história, e não estamos imunes a ela. Profissões vão mudar, tarefas serão automatizadas, algumas funções provavelmente deixarão de existir e outras que hoje nem conhecemos serão criadas. Tentar impedir isso seria tão inútil quanto pedir que a Runway de 2026 voltasse a funcionar como a revista de 2006.
Mas talvez a pergunta errada seja: “o que eu preciso fazer para que uma inteligência artificial nunca consiga me substituir?”. Provavelmente não existe resposta permanente para isso. A pergunta mais interessante é outra: que tipo de profissional eu quero ser enquanto tudo isso muda?
Emily escolheu poder. Benji escolheu eficiência. Miranda escolheu excelência. Andy, com todas as suas contradições, continua escolhendo pessoas. E é curioso que seja justamente ela — a que ainda se incomoda, ainda cria vínculos, ainda olha para o colega ao lado e ainda consegue enxergar humanidade até em Miranda Priestly — quem ajuda a encontrar uma saída quando todos os outros estão ocupados demais tentando vencer.
O suéter azul-cerúleo
E aqui eu preciso voltar a uma cena que não está no segundo filme, mas explica melhor do que qualquer outra o que está acontecendo com todos nós.
Em 2006, Andy ri de duas peças de moda que lhe parecem idênticas, e Miranda a destrói com um monólogo. Ela aponta para o suéter azul que Andy está vestindo — um suéter comum, comprado numa liquidação qualquer — e reconstrói, passo a passo, a genealogia daquela cor. Não é azul, é cerúleo. Apareceu numa coleção de alta-costura, foi replicado por outros estilistas, desceu para as grifes mais acessíveis, depois para as lojas de departamento, e finalmente parou numa arara de saldos, onde Andy o pescou acreditando que estava fora daquele sistema.
O golpe do discurso é este: Andy pensava estar exercendo uma escolha pessoal. Na verdade, estava usando uma decisão tomada anos antes, por pessoas que ela nunca conheceu, numa sala em que jamais entrou. Ela achava que tinha escolhido. Tinha apenas recebido.
Vinte anos depois, o suéter azul-cerúleo somos todos nós.
Quando você aceita a primeira sugestão que a inteligência artificial oferece, ela parece uma escolha sua. Mas aquele texto, aquela imagem, aquela recomendação de contratação, aquela projeção de vendas, aquela decisão sobre quem cortar e quem manter — tudo isso desceu por uma cadeia que começou muito antes, em decisões de arquitetura, de dados de treinamento, de objetivos de otimização, tomadas por pessoas que você nunca conheceu, em salas em que você jamais entrou. Você olha para as opções na tela e enxerga liberdade. Miranda olharia e enxergaria a cadeia inteira.
É por isso que o verdadeiro risco da inteligência artificial não é ela nos substituir. É ela nos transformar em Andy no começo do primeiro filme: pessoas convencidas de que estão escolhendo, quando na verdade estão apenas aceitando o que chegou até elas — e rindo, com alguma superioridade, de quem ainda insiste que existe diferença entre duas coisas que parecem iguais.
A boa notícia é que aquela cena tem uma continuação. Andy não permaneceu ali. Ela passou o resto do filme, e os vinte anos seguintes, aprendendo a enxergar a diferença — e o segundo filme a devolve à Runway precisamente porque alguém se lembrou de que ela aprendeu.
Foi isso que Miranda realmente ensinou, e demorou duas décadas e dois filmes para ficar claro. Não foi sobre moda, nem sobre poder, e muito menos sobre inteligência artificial. Foi sobre valor — aquela coisa que, desde os dois cintos de 2006, nunca foi exatamente a mesma coisa que preço.
A inteligência artificial vai produzir uma quantidade extraordinária de coisas, e isso é uma oportunidade gigantesca. Mas quanto mais barato se tornar produzir, mais valioso se tornará saber escolher o que merece existir. Eficiência consegue calcular quanto custa manter alguém numa cadeira; só uma pessoa consegue decidir por que aquela pessoa deveria continuar ali.
No fim, a pergunta que este filme deixa não é se a máquina vai tirar o seu lugar. É se, quando ela colocar dois cintos na sua frente, você ainda vai conseguir ver a diferença.
Fontes e referências
- 20th Century Studios — informações oficiais sobre The Devil Wears Prada (2006) e The Devil Wears Prada 2 (2026).
- D23 / Disney — perfis de Sasha Barnes e Benji Barnes e comentários do diretor David Frankel.
- Entertainment Weekly — entrevistas com elenco e diretor e análise dos acontecimentos centrais de O Diabo Veste Prada 2.
- McKinsey & Company — The State of Fashion 2026: When the Rules Change.
- Reuters Institute for the Study of Journalism — Generative AI and News Report 2025.
- Organização Internacional do Trabalho — Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure.
- Stanford Institute for Economic Policy Research — análise de julho de 2026 sobre IA, produtividade e mercado de trabalho.