A NOAA aponta mais de 90% de chance de o El Niño que se forma agora no Pacífico se tornar muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027 — e calcula ainda 69% de chance de ele ir além, atingindo o patamar mais intenso já registrado desde 1950. São duas coisas diferentes, e este guia explica cada uma: o que é o fenômeno, como a ciência (e a IA) aprenderam a prevê-lo com meses de antecedência, e o que ele deve fazer com o Brasil nos próximos doze meses.
Nota metodológica: as afirmações e números centrais deste artigo foram confrontados com boletins oficiais (NOAA/CPC e o Painel El Niño brasileiro), bases de dados, literatura científica revisada por pares e fontes jornalísticas reconhecidas quando necessário. Onde há incerteza, eu digo que há. Previsão climática muda: os dados aqui são de 19 de agosto de 2026, e o próximo boletim oficial da NOAA sai em 10 de setembro.
⏱️ Resumo em 1 minuto
- O que está acontecendo agora. A NOAA mantém um Alerta de El Niño desde junho de 2026. Em 13 de agosto, elevou para mais de 90% a chance de um evento “muito forte” entre o fim de 2026 e o começo de 2027.
- Além disso, a barra mais extrema. Para o trimestre outubro-dezembro, há 69% de chance de o evento ir além e se tornar histórico — mais forte do que qualquer El Niño registrado desde 1950. São probabilidades diferentes: “muito forte” é quase certo; “o mais forte desde 1950” é provável, não garantido.
- A escala do que isso significa. Os grandes El Niños deixaram marcas que ainda estudamos: a Grande Seca de 1877 no Nordeste brasileiro, uma das piores secas do século XX na Austrália em 1982, mais de 22 mil mortes em 1997, e 60 milhões de pessoas afetadas em 2015.
- No Brasil, o efeito é dividido ao meio. O INMET e mais seis órgãos federais projetam chuva em excesso e risco de enchentes no Sul, e seca, calor e fogo no Norte, Nordeste e Centro-Oeste — com risco de agravamento da estiagem amazônica nos próximos meses.
- A boa notícia é que estamos vendo isso com meses de antecedência — algo que a humanidade não tinha em nenhuma das catástrofes anteriores. O que fazemos com esse aviso é outra história, e é sobre isso que termino o artigo.
📑 Neste artigo
- O que é o El Niño, sem jargão
- Como aprendemos a enxergá-lo
- As piores temporadas da história
- Como aprendemos a prevê-lo
- O que os modelos dizem sobre 2026-2027
- O que muda no Brasil
- Da lavoura à economia: o custo de um El Niño
- Conclusão: o aviso e o que se faz com ele
Parte 1 — O que é o El Niño, sem jargão
Comece imaginando o Oceano Pacífico como uma banheira gigantesca que atravessa o planeta, da Indonésia ao Peru.
Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste ao longo da linha do Equador, empurrando continuamente a água quente da superfície na direção da Ásia. Esse empurrão constante produz dois efeitos. Do lado ocidental, perto da Indonésia, acumula-se uma enorme piscina de água morna — tão volumosa que o nível do mar chega a ficar dezenas de centímetros mais alto ali do que do outro lado. E do lado oriental, junto à costa da América do Sul, a água que foi levada embora precisa ser reposta por baixo: sobe das profundezas uma corrente fria e riquíssima em nutrientes, que sustenta uma das pescarias mais produtivas do mundo.
Essa organização não é apenas oceânica. Sobre a piscina quente do oeste, o ar aquece, sobe e forma nuvens — é por isso que a Indonésia é chuvosa. No leste, sobre a água fria, o ar desce e o clima é seco — é por isso que o litoral do Peru e do Chile abriga alguns dos desertos mais áridos do planeta. Esse circuito de ar que sobe de um lado e desce do outro tem nome: circulação de Walker, em homenagem ao cientista que a descreveu, e a quem vamos voltar em instantes.
O El Niño é o que acontece quando essa engrenagem se solta.
Por razões que a ciência ainda não explica por completo, os ventos alísios enfraquecem. Sem o empurrão, a piscina de água quente acumulada no oeste escorrega de volta para leste, espalhando-se pelo Pacífico central e oriental. A água morna que chega funciona como uma tampa: ela impede que a corrente fria e nutritiva suba das profundezas. E aí o sistema inteiro se inverte — chove onde costumava ser seco, seca onde costumava chover, e a pescaria peruana desaba.
O detalhe mais elegante, e o mais perturbador, é que o processo se retroalimenta. Ventos mais fracos aquecem o leste; o leste mais quente reduz o contraste de temperatura entre os dois lados do oceano; e é justamente esse contraste que fazia os ventos soprarem. Ventos mais fracos aquecem ainda mais o leste, que enfraquece ainda mais os ventos. Uma vez iniciado, o El Niño se empurra sozinho — o que explica por que ele cresce tão rápido e por que, quando engrena, é difícil de parar.
E o nome? Ele veio dos pescadores peruanos, que perceberam há séculos que essas águas quentes e a consequente escassez de peixe costumavam aparecer perto do Natal. Batizaram o fenômeno de El Niño — o Menino, uma referência ao Menino Jesus. É uma das poucas vezes na história em que a comunidade científica adotou integralmente o vocabulário de trabalhadores que observaram o fenômeno primeiro.
Parte 2 — Como aprendemos a enxergá-lo
A história de como a ciência decifrou o El Niño é, para mim, uma das mais bonitas da meteorologia — porque ela começa com um problema aparentemente sem solução e leva quase um século para ser resolvida.
O primeiro registro documentado de anomalias desse tipo aparece nos diários de bordo de Francisco Pizarro, em 1525. Durante os três séculos seguintes, o fenômeno permaneceu como conhecimento local: pescadores peruanos sabiam que “o Menino” chegava de tempos em tempos, e ponto final. Ninguém suspeitava que aquilo tivesse qualquer relação com o resto do mundo.
A primeira pista de que havia algo maior em jogo veio de um lugar improvável. Em 1888, o astrônomo e meteorologista Charles Todd, trabalhando na Austrália, notou uma coincidência estranha: secas severas na Índia e na Austrália tendiam a acontecer ao mesmo tempo. Dois continentes separados por um oceano inteiro, sofrendo em sincronia. Ninguém sabia explicar.
Foi uma tragédia que colocou o problema no topo da agenda científica. Depois das devastadoras fomes indianas do fim do século XIX, o governo britânico encarregou o matemático Sir Gilbert Walker de encontrar alguma maneira de prever as monções — a chuva da qual dependia a sobrevivência de milhões de pessoas. Walker atacou o problema com o que tinha à mão: uma montanha de dados meteorológicos e um exército de calculistas humanos, décadas antes de existir qualquer computador.
O que ele encontrou na década de 1920 foi um padrão que ninguém esperava: a pressão atmosférica no Pacífico funcionava como uma gangorra. Quando subia em Darwin, na Austrália, descia no Taiti — e vice-versa, de forma teimosamente regular. Walker batizou isso de Oscilação Sul. Ele havia descoberto a assinatura atmosférica do El Niño sem saber o que era, e sem conseguir explicar por que acontecia. Seus contemporâneos, em larga medida, o trataram como um numerólogo que via padrões onde não havia física.
Walker morreu antes de a resposta aparecer. Ela veio em 1969, num artigo hoje clássico publicado por Jacob Bjerknes na Monthly Weather Review, intitulado “Teleconexões atmosféricas do Pacífico Equatorial”. Bjerknes fez a ligação que faltava: a Oscilação Sul de Walker, na atmosfera, e o El Niño dos pescadores, no oceano, não eram dois fenômenos. Eram um só. Oceano e atmosfera formavam um sistema acoplado, cada um alimentando o outro — o mecanismo de retroalimentação que descrevi acima e que hoje leva seu nome. Foi ali que nasceu o conceito moderno, que passou a ser chamado de ENOS (El Niño-Oscilação Sul), ou ENSO na sigla em inglês.
Faltava, ainda, o mais importante: alguém precisava ir olhar.
Em 1982, formou-se um El Niño colossal — e a comunidade científica não o viu chegar. Pior: por um tempo, nem percebeu que estava acontecendo. Os sinais que os pesquisadores haviam aprendido a procurar, com base nos eventos anteriores, simplesmente não apareceram na ordem esperada. O oceano estava fazendo algo enorme e ninguém tinha instrumentos suficientes ali para acompanhar.
Esse constrangimento produziu a resposta certa. Entre 1985 e 1994, dez anos de esforço internacional coordenado sob o programa TOGA (Tropical Ocean-Global Atmosphere) construíram algo que não existia: um sistema de observação permanente no meio do Pacífico. O núcleo dele é o arranjo TAO/TRITON, cerca de setenta boias ancoradas ao longo do Equador, a maioria equipada com cadeias de sensores que medem a temperatura da água até 500 metros de profundidade, além de instrumentos meteorológicos na superfície. Os dados sobem por satélite e chegam aos centros de previsão em tempo quase real.
Vale um registro de orgulho nacional aqui, que raramente aparece nas reportagens: o sucesso do modelo levou à criação de arranjos semelhantes em outros oceanos, e o do Atlântico tropical — o programa PIRATA — é mantido em parceria entre Brasil, França e Estados Unidos, com participação de pesquisadores brasileiros como Paulo Nobre e Edmo Campos. O Brasil não é só afetado por esse sistema; ajuda a operá-lo.
Parte 3 — As piores temporadas da história
Antes de olhar para o que vem pela frente, é preciso entender o que esses eventos já fizeram. E o exemplo mais importante para nós, brasileiros, é também o mais antigo.
1877-1878: a Grande Seca
O El Niño de 1877-78 está entre os mais fortes já reconstruídos. As reconstruções de temperatura do mar indicam um pico do índice Niño-3 em torno de 3,5 °C acima da média — embora, e isso precisa ser dito, a incerteza dessas reconstruções do século XIX seja enorme: numa análise de mil membros de conjunto, o pico médio cai para cerca de 1,8 °C, com uma margem muito maior que a dos eventos modernos. Um estudo publicado no Journal of Climate por Boyin Huang e colegas mostrou que, quando se leva a incerteza a sério, a diferença de intensidade entre 1877-78 e os grandes eventos modernos não é estatisticamente significativa. Ou seja: 1877 foi extremo, mas provavelmente não fora de alcance.
O que o tornou singular não foi a força. Foi o que aconteceu depois.
As monções da Índia falharam. As chuvas do norte da China falharam. E, no Brasil, instalou-se aquela que entrou para a história como a Grande Seca do Nordeste, entre 1877 e 1879 — uma catástrofe que despovoou o sertão, empurrou multidões para Fortaleza e para a Amazônia, e moldou a política nordestina por gerações. Nas três regiões, ao mesmo tempo, por causa do mesmo oceano.
O saldo global é assombroso: estima-se que dezenas de milhões de pessoas — as estimativas variam de 30 a 60 milhões — tenham morrido nas fomes que se seguiram. O historiador Mike Davis batizou o episódio de “Holocaustos da Era Vitoriana”, e a expressão carrega uma tese que é o ponto central desta seção. Como escreveram os autores de um estudo de 2018 sobre o episódio, os gatilhos foram as secas agudas, mas foram fatores políticos e econômicos — especialmente o abandono ou a destruição dos sistemas tradicionais de armazenamento de água e grãos — os responsáveis por converter quebra de safra em mortalidade em massa.
Guarde essa frase. Vou voltar a ela no final.
1982-1983: o evento que ninguém viu
Foi o El Niño que pegou a ciência desprevenida e, por isso mesmo, o que mais fez avançar a ciência. Trouxe à Austrália uma das piores secas do século XX e ao Peru enchentes catastróficas. As estimativas iniciais de prejuízo global ficavam na casa dos 8 bilhões de dólares; um trabalho posterior de Christopher Callahan e Justin Mankin, publicado na Science em 2023, revisou drasticamente esses números ao contabilizar os efeitos econômicos que se arrastam por anos após o evento.
1997-1998: o El Niño que virou nome de família
Este foi o evento que tornou a expressão conhecida do grande público mundial. Estima-se que ele tenha causado mais de 22 mil mortes e algo em torno de US$ 36 bilhões em prejuízos. Foi o ano em que a Indonésia queimou em incêndios florestais massivos e em que a pescaria de anchoveta peruana entrou em colapso.
2015-2016: o mais quente dos registros modernos
Pelo índice tradicional, o evento de 2015-16 detém o maior pico já medido desde 1950: cerca de +2,6 °C no trimestre novembro-dezembro-janeiro. Suas consequências humanitárias foram imensas — estima-se que mais de 60 milhões de pessoas tenham sido afetadas pelas secas e enchentes associadas.
Desde 1950, cinco eventos ultrapassaram a marca de +2,0 °C pelo índice ONI tradicional: 1972-73, 1982-83, 1997-98, 2015-16 e 2023-24. Pelo RONI, hoje o índice oficial, esse ranking muda — como veremos adiante.
Parte 4 — Como aprendemos a prevê-lo
Entender o fenômeno é uma coisa. Antecipá-lo é outra, muito mais difícil — e a história dessa conquista é onde a computação entra.
O modelo que acertou o futuro
Em 1986, Mark Cane e Stephen Zebiak, do Observatório Lamont-Doherty da Universidade Columbia, publicaram na Nature algo que parecia audacioso demais: um modelo matemático relativamente simples, que representava apenas uma faixa estreita do oceano e da atmosfera em torno do Equador, e que previu a chegada do El Niño de 1986-87 com cerca de um ano de antecedência.
Deu certo. Foi a primeira previsão bem-sucedida de um El Niño com um modelo dinâmico, e ela fundou um campo inteiro.
O que torna esse feito notável é a modéstia dos recursos. O modelo de Cane e Zebiak não tentava simular o planeta inteiro; ele capturava a física essencial da retroalimentação de Bjerknes e deixava o resto de fora. Rodava em computadores que hoje seriam humilhados por um celular. A lição — que vale para muito além da meteorologia — é que entender o mecanismo certo vale mais que força bruta computacional.
Depois vieram os supercomputadores
Com o passar das décadas, o campo migrou para os modelos de circulação geral acoplados: simulações do planeta inteiro que dividem oceano e atmosfera em milhões de células tridimensionais e resolvem, para cada uma delas, as equações da física de fluidos, avançando passo a passo no tempo. Esses modelos consomem os maiores supercomputadores do mundo — e a previsão que a NOAA publica hoje não sai de um só deles, mas de um conjunto (ensemble): dezenas de simulações rodadas com pequenas variações nas condições iniciais, para mapear não apenas o cenário mais provável, mas a distribuição de cenários possíveis.
É por isso que os boletins oficiais falam sempre em probabilidades, e não em certezas. Mas quando a NOAA diz “69% de chance”, não é uma simples contagem de simulações: uma equipe de especialistas pondera dezenas de modelos e ensembles junto com observações de boias, satélites e reanálises para chegar a esse número.
A barreira da primavera, e como a IA ampliou o horizonte
Havia, porém, um obstáculo que resistia a todo aumento de poder computacional. Os meteorologistas o chamam de barreira de previsibilidade da primavera: previsões feitas entre março e maio, atravessando a primavera do Hemisfério Norte, perdiam drasticamente a qualidade. É o período em que o sistema oceano-atmosfera está em transição, com sinais fracos e ruído alto — e nenhum modelo dinâmico conseguia enxergar direito através dele.
Em setembro de 2019, um trabalho publicado na Nature por Yoo-Geun Ham, Jeong-Hwan Kim e Jing-Jia Luo mudou esse quadro. Eles treinaram uma rede neural convolucional — o mesmo tipo de arquitetura usada em reconhecimento de imagens — para prever o índice Niño-3.4. O problema óbvio era a escassez de dados: existem apenas algumas dezenas de El Niños bem observados na história, e redes neurais precisam de muitos exemplos. A solução foi engenhosa: eles usaram aprendizado por transferência, treinando a rede primeiro em milhares de anos de simulações climáticas e só depois ajustando-a com os dados reais.
O resultado foi um salto. O modelo produziu previsões úteis para prazos de até um ano e meio, com uma medida de acerto de 0,64 contra os 0,5 dos melhores modelos dinâmicos da época — e, crucialmente, melhorou a qualidade das previsões através da barreira da primavera que travava os métodos tradicionais, ainda que essa barreira siga sendo um dos principais desafios em aberto do ENSO. Trabalhos posteriores estenderam esses prazos ainda mais, com arquiteturas mais recentes chegando a horizontes de 20 a 22 meses.
Não é que a IA tenha substituído os supercomputadores; os centros operacionais continuam combinando as duas abordagens. Mas há aqui um detalhe filosoficamente interessante. Os modelos dinâmicos preveem porque entendem a física. As redes neurais preveem porque reconhecem padrões — inclusive padrões que os cientistas não haviam catalogado, como interações entre bacias oceânicas distantes. Uma parte da pesquisa atual consiste justamente em abrir essas redes para descobrir o que elas aprenderam a ver.
O termômetro que precisou ser trocado
Guardei para o fim desta seção uma mudança técnica que parece burocrática e é, na verdade, profunda.
Durante décadas, o índice oficial foi o ONI (Oceanic Niño Index): a temperatura da superfície do mar na região Niño-3.4, comparada com a média histórica daquele lugar. Simples e eficaz.
Só que surgiu um problema. O oceano inteiro está esquentando. Quando você compara a temperatura de hoje com a média de décadas atrás, parte do “excesso” que você mede não é El Niño — é aquecimento global de fundo. O índice passou a somar duas coisas diferentes e a chamar tudo de El Niño.
A resposta foi o RONI (Relative Oceanic Niño Index), que subtrai o aquecimento médio de todos os trópicos antes de calcular a anomalia — isolando, assim, o que é de fato o fenômeno. A NOAA acompanhava os dois desde 2021 e concluiu que o RONI representa melhor a resposta da atmosfera. Em fevereiro de 2026, ele substituiu oficialmente o ONI.
Pare um segundo sobre o que isso significa. Tivemos de trocar o termômetro porque o “normal” que ele media saiu do lugar. É uma das evidências mais concretas e menos discutidas de que o pano de fundo climático do planeta mudou — e ela tem uma consequência prática direta: o mesmo El Niño, ocorrendo sobre um oceano mais quente, entrega mais calor à atmosfera do que teria entregado quarenta anos atrás.
Parte 5 — O que os modelos dizem sobre 2026-2027
Agora, o presente. E os números são notáveis.
A NOAA declarou a formação do El Niño em junho de 2026, emitindo um Alerta de El Niño. Desde então, a probabilidade de o evento atingir a categoria “muito forte” subiu de forma consistente a cada boletim: 63% em junho, 81% em julho, mais de 90% em agosto.
No boletim oficial de 13 de agosto de 2026, o Climate Prediction Center descreve um oceano já profundamente alterado. As anomalias de temperatura ultrapassam +2,0 °C no Pacífico equatorial oriental. Os índices de julho marcaram +1,4 °C na região Niño-3.4, +1,7 °C na Niño-3 e +2,9 °C na Niño-1+2, a mais próxima da costa sul-americana. Abaixo da superfície, o quadro é ainda mais dramático: as anomalias de temperatura em profundidade chegaram a +10,0 °C, o que indica uma quantidade enorme de calor represada, pronta para aflorar. E a Oscilação Sul — aquela gangorra que Walker descobriu — está com valores próximos de dois desvios-padrão do normal, sinal de que a atmosfera já está plenamente acoplada ao oceano.
E então vem a frase que me fez querer escrever este artigo. Já vimos que há mais de 90% de chance de o evento ser muito forte — isso é quase certo. O que a NOAA acrescenta é um segundo número, mais extremo: para o trimestre outubro-dezembro de 2026, há 69% de chance de ele ir além e se tornar histórico — um RONI de +2,5 °C ou mais, o que superaria todos os El Niños do registro desde 1950. São coisas diferentes, e vale guardar a distinção: os 90% dizem que o evento será muito forte; os 69%, que ele pode ser o mais forte de todos desde que se começou a medir.
Duas ressalvas de honestidade, que a própria NOAA faz questão de registrar.
A primeira é que intensidade não determina impacto de forma automática. No texto do boletim, os cientistas escrevem que, com um evento dessa magnitude, as chances de ocorrerem os impactos típicos de El Niño são maiores — mas não garantidas. O clima local depende de muitos outros fatores, incluindo a temperatura do Atlântico, que é especialmente relevante para o Brasil.
A segunda é que previsão é probabilidade. Ainda há uma minoria de cenários em que o evento fica abaixo do esperado. A próxima atualização oficial sai em 10 de setembro de 2026, e vale acompanhar.
Parte 6 — O que muda no Brasil
Aqui a análise brasileira é robusta, e vale saber que ela existe: em 31 de julho de 2026, o INMET publicou o Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, produzido em conjunto com o INPE, a ANA, o CEMADEN, o Serviço Geológico do Brasil, a Defesa Civil nacional (SEDEC) e o CENSIPAM. Sete órgãos federais cruzando previsão meteorológica, nível de rios, umidade do solo e indicadores de seca.
A conclusão central: 100% de probabilidade de o El Niño permanecer ativo até pelo menos o início de 2027, com alta chance de atingir intensidade muito forte entre a primavera e o começo do verão — exatamente o período de plantio da safra brasileira.
O que caracteriza o El Niño no Brasil é que ele parte o país em dois, com efeitos opostos.
Norte, Nordeste e Centro-Oeste
Seca, calor e fogo. Chuvas abaixo da média, rios em queda e risco alto de queimadas, com alerta para agravamento da estiagem amazônica nos próximos meses.
Sul
Chuva em excesso. Temporais frequentes, rios cheios e risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos.
Sudeste
Relação menos direta. Calor elevado e início irregular da estação chuvosa — com risco de seca se as chuvas atrasarem.
No Sul, o padrão é de chuva acima da média, temporais mais frequentes, elevação do nível dos rios e risco aumentado de enchentes, alagamentos e deslizamentos. Para a agricultura, o efeito é ambíguo: mais água pode beneficiar culturas de inverno, mas o encharcamento do solo dificulta a entrada de máquinas, atrasa o manejo e favorece doenças fúngicas nas lavouras.
No Norte, especialmente na Amazônia, o quadro é o inverso e mais preocupante. O boletim projeta redução das chuvas, atraso no início da estação chuvosa, temperaturas elevadas e queda no nível de rios e reservatórios. Embora a condição observada em meados de 2026 ainda não fosse tão severa quanto a de 2023, o boletim alerta para o risco de agravamento nos próximos meses. Vale lembrar que 2023 e 2024 trouxeram uma estiagem histórica na região, com rios em mínimas recordes e comunidades ribeirinhas isoladas por falta de navegação. É um risco humanitário concreto, não uma abstração meteorológica.
No Nordeste, o padrão típico de El Niño é de redução das chuvas na porção norte da região, com o boletim apontando avanço da seca.
No Centro-Oeste, espera-se atraso no retorno das chuvas, prolongamento do período seco e temperaturas acima da média. A combinação de calor intenso, baixa umidade e falta de chuva é a receita clássica para queimadas — o CENSIPAM projeta focos intensos em Tocantins, Pará, Maranhão, Amazonas, Acre e Rondônia, repetindo o padrão de 2023 e 2024. Mato Grosso aparece como área crítica. Há um efeito colateral positivo: tempo seco favorece a colheita do milho e do algodão de segunda safra.
No Sudeste, a relação com o El Niño é menos direta, e o boletim é honesto sobre isso. O que se projeta são temperaturas elevadas, ondas de calor mais prolongadas e irregularidade no início da estação chuvosa. O risco apontado é o de que, se as chuvas de primavera demorarem, a seca avance rapidamente sobre solos já secos pela evaporação aumentada.
A Bacia do Paraguai aparece no boletim como situação de atenção especial.
O órgão recomenda o que qualquer pessoa deveria fazer com informação desse tipo: acompanhar os boletins oficiais, manter o cadastro atualizado para receber alertas da Defesa Civil, conhecer áreas de risco e rotas de fuga, e — para quem produz — revisar o planejamento de safra e a proteção contra perdas antes da janela crítica, e não durante.
Parte 7 — Da lavoura à economia: o custo de um El Niño
Até aqui falamos de chuva, seca e fogo. Mas existe uma corrente que começa no meio do Pacífico e termina na mesa — e na economia.
O primeiro elo é o campo. Ao reorganizar a chuva do planeta — seca onde deveria chover, enchente onde deveria ser seco —, o El Niño cobra o primeiro pedágio da agricultura: plantio atrasado, lavoura perdida, colheita menor. E o que falta na lavoura falta depois no prato. Menos grãos significam comida mais cara e também menos ração — o que reduz rebanhos e encarece a proteína. É assim que um padrão de ventos no oceano se converte, meses depois, em insegurança alimentar do outro lado do mundo.
Os números do evento atual já traduzem esse risco. Em agosto de 2026, o Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP) estimou que o El Niño de 2026-27 pode empurrar cerca de 49 milhões de pessoas a mais para a fome aguda até o fim de 2027 — elevando o total em insegurança alimentar grave de cerca de 225 para 274 milhões (uma alta de 22%), numa análise de 45 países vulneráveis. América Central e África Austral aparecem como as regiões mais expostas.
O segundo elo é a destruição. Enchentes, deslizamentos e secas prolongadas cobram um preço material — casas, estradas, plantações e infraestrutura que precisam ser reconstruídas. E cada real gasto para reconstruir o que foi destruído é um real que deixa de ser investido no que faria o país avançar. O desastre não apenas destrói riqueza: ele desvia recursos do futuro para tapar buracos do presente.
Somando tudo, o rastro econômico é maior — e mais duradouro — do que se imaginava. Num estudo publicado na Science em 2023, os cientistas Christopher Callahan e Justin Mankin mostraram que o prejuízo de um El Niño não termina quando o evento acaba: ele se arrasta por anos, e em algumas regiões por mais de uma década. Segundo eles, os grandes eventos do fim do século XX custaram trilhões de dólares à economia global nos anos seguintes, e as perdas acumuladas ao longo do século XXI podem alcançar dezenas de trilhões — à medida que o aquecimento tende a tornar o fenômeno mais intenso.
Repare no padrão que atravessa todos esses números: o clima aperta o gatilho, mas é a preparação — ou a falta dela — que decide o tamanho do estrago. E é exatamente sobre essa diferença que quero terminar.
Conclusão: o aviso e o que se faz com ele
Termino voltando a 1877, porque acho que é ali que está a lição deste artigo.
Quando as monções falharam na Índia, quando as chuvas sumiram do norte da China, quando o sertão nordestino rachou na Grande Seca, ninguém no planeta sabia por quê. Não havia Gilbert Walker, não havia Bjerknes, não havia boias no Pacífico, não havia satélite, supercomputador ou rede neural. As pessoas viram o céu não escurecer e não tiveram absolutamente nenhuma maneira de saber que a causa estava a doze mil quilômetros dali, numa faixa de oceano que a maioria delas jamais ouvira falar.
Cinquenta milhões de pessoas morreram.
E, no entanto, o estudo mais cuidadoso já feito sobre aquele episódio conclui que a seca foi o gatilho — mas que foram decisões humanas, o abandono dos sistemas de armazenamento de água e grãos e as políticas econômicas da época, que transformaram quebra de safra em mortalidade em massa. A natureza puxou o gatilho. A organização social decidiu se a bala acertava alguém.
Cento e quarenta e nove anos depois, eu escrevo este texto olhando para um boletim oficial que me diz, com meses de antecedência, que o Pacífico está acumulando calor a dez graus acima do normal em profundidade, que a probabilidade de um evento muito forte passa de 90%, e que há 69% de chance de vermos o El Niño mais intenso desde que se mede.
Nós temos o que os vitorianos não tinham. Temos setenta boias ancoradas no meio do oceano transmitindo dados por satélite, temos modelos que resolvem as equações da física em milhões de células, temos redes neurais que enxergam padrões dezoito meses adiante, e temos sete órgãos federais brasileiros publicando conjuntamente onde vai faltar água e onde vai sobrar. Levamos um século e meio para construir isso, e é uma das conquistas mais subestimadas da ciência moderna.
Mas a previsão não é a proteção. Ela é apenas a informação que torna a proteção possível.
O que a história do El Niño ensina, no fim, não é sobre oceanografia. É que existe uma diferença enorme entre saber e agir, e que essa diferença tem sido, historicamente, medida em vidas. A ciência resolveu a parte difícil: ela nos deu o aviso com meses de antecedência, algo que nenhuma geração anterior teve. O que resta é a parte que nenhum supercomputador resolve — a decisão de fazer alguma coisa com ele.
O oceano avisou. Desta vez, com muita antecedência.